quinta-feira, 1 de outubro de 2009
sábado, 12 de abril de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
Conexão Diplomática
Por Claudio Dantas Sequeira
Pequim-Brasília
A coluna apurou que o embaixador chinês em Brasília, Cheng Duqing, se reuniu a portas fechadas, na quarta-feira, com o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães. Além de dar detalhes da situação no Tibete, Duqing pediu o apoio explícito do governo Lula à causa chinesa. Guimarães ouviu as queixas, disse que acompanha atentamente o conflito e expressou o desejo de que a situação volte à normalidade. O representante de Pequim deixou o gabinete insatisfeito, sem conhecer a posição oficial do Brasil sobre o tema. Não é a primeira vez que o Itamaraty se cala diante de situações sensíveis. No caso de Kosovo, o chanceler Celso Amorim emitiu sinais contraditórios. Apóia as resoluções da ONU, mas considera relevante as pessoas nas ruas felizes, comemorando a independência.
A caixa de pandora
A declaração de independência do Kosovo em fevereiro passado abriu definitivamente as portas para que outras causas separatistas ganhem projeção. O Tibete é primeira prova concreta desse efeito, tantas vezes aventado por diversos observadores. Embora a causa liderada pelo dalai-lama Tenzin Gyatso seja antiga, ela voltou no último dia 10 — aniversário da revolta tibetana contra a ocupação chinesa — como uma onda explosiva cujos efeitos políticos tiraram o sono do governo central da China. Tudo leva a crer que tratou-se de um movimento orquestrado: a ocorrência simultânea de ataques a embaixadas e representações chinesas em diversos países, em meio às eleições do Partido Comunista Chinês, às vésperas do plebiscito em Taiwan e da abertura das Olimpíadas.
Se a crise nos Bálcãs teve o dedo ostensivo da Casa Branca, não seria difícil concluir que o governo de George W. Bush tem sua responsabilidade no episódio chinês. Especialmente quando se toma em conta o histórico dos Estados Unidos na defesa do governo tibetano, tanto internamente como no exílio. Foram manobras da CIA que encorajaram a insurreição armada de 1959, que acabou com a derrota das forças feudais tibetanas e a fuga do lama para a Índia, numa operação encoberta pelo serviço de inteligência. A lógica da Guerra Fria é reinventada pelas mãos de Bush, num esforço de criar fatos que causem desgaste político a adversários como China e Rússia.
Fontes de inteligência estimam que o dalai-lama recebe dinheiro dos movimentos separatistas de Taiwan, onde hoje ocorre votação sobre sua entrada na ONU. O reconhecimento da ilha como país seria uma declaração de guerra, aos olhos de Pequim. Por isso, forças apoiadas pelo governo de Hu Jintao articulam um megaboicote ao pleito. O voto não é obrigatório, e os eleitores que também vão às urnas escolher o presidente não precisam preencher a cédula sobre o plebiscito. Novos conflitos são iminentes.
G-8 e Al-Qaeda
A inteligência japonesa descobriu que a Al-Qaeda está recrutando simpatizantes no país. Informações recentes levam a crer que extremistas islâmicos deixaram o Paquistão rumo ao sul da Ásia e já estariam operando células urbanas em Tóquio. Isso explicaria por que a cúpula do G-8 foi transferida para a ilha de Hokkaido. O governo está preparando um inédito esquema de segurança para o evento de julho. Em 2003, Osama bin Laden ameaçou atacar o Japão por sua participação nas ocupações do Iraque e do Afeganistão.
Pequim-Brasília
A coluna apurou que o embaixador chinês em Brasília, Cheng Duqing, se reuniu a portas fechadas, na quarta-feira, com o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães. Além de dar detalhes da situação no Tibete, Duqing pediu o apoio explícito do governo Lula à causa chinesa. Guimarães ouviu as queixas, disse que acompanha atentamente o conflito e expressou o desejo de que a situação volte à normalidade. O representante de Pequim deixou o gabinete insatisfeito, sem conhecer a posição oficial do Brasil sobre o tema. Não é a primeira vez que o Itamaraty se cala diante de situações sensíveis. No caso de Kosovo, o chanceler Celso Amorim emitiu sinais contraditórios. Apóia as resoluções da ONU, mas considera relevante as pessoas nas ruas felizes, comemorando a independência.
A caixa de pandora
A declaração de independência do Kosovo em fevereiro passado abriu definitivamente as portas para que outras causas separatistas ganhem projeção. O Tibete é primeira prova concreta desse efeito, tantas vezes aventado por diversos observadores. Embora a causa liderada pelo dalai-lama Tenzin Gyatso seja antiga, ela voltou no último dia 10 — aniversário da revolta tibetana contra a ocupação chinesa — como uma onda explosiva cujos efeitos políticos tiraram o sono do governo central da China. Tudo leva a crer que tratou-se de um movimento orquestrado: a ocorrência simultânea de ataques a embaixadas e representações chinesas em diversos países, em meio às eleições do Partido Comunista Chinês, às vésperas do plebiscito em Taiwan e da abertura das Olimpíadas.
Se a crise nos Bálcãs teve o dedo ostensivo da Casa Branca, não seria difícil concluir que o governo de George W. Bush tem sua responsabilidade no episódio chinês. Especialmente quando se toma em conta o histórico dos Estados Unidos na defesa do governo tibetano, tanto internamente como no exílio. Foram manobras da CIA que encorajaram a insurreição armada de 1959, que acabou com a derrota das forças feudais tibetanas e a fuga do lama para a Índia, numa operação encoberta pelo serviço de inteligência. A lógica da Guerra Fria é reinventada pelas mãos de Bush, num esforço de criar fatos que causem desgaste político a adversários como China e Rússia.
Fontes de inteligência estimam que o dalai-lama recebe dinheiro dos movimentos separatistas de Taiwan, onde hoje ocorre votação sobre sua entrada na ONU. O reconhecimento da ilha como país seria uma declaração de guerra, aos olhos de Pequim. Por isso, forças apoiadas pelo governo de Hu Jintao articulam um megaboicote ao pleito. O voto não é obrigatório, e os eleitores que também vão às urnas escolher o presidente não precisam preencher a cédula sobre o plebiscito. Novos conflitos são iminentes.
G-8 e Al-Qaeda
A inteligência japonesa descobriu que a Al-Qaeda está recrutando simpatizantes no país. Informações recentes levam a crer que extremistas islâmicos deixaram o Paquistão rumo ao sul da Ásia e já estariam operando células urbanas em Tóquio. Isso explicaria por que a cúpula do G-8 foi transferida para a ilha de Hokkaido. O governo está preparando um inédito esquema de segurança para o evento de julho. Em 2003, Osama bin Laden ameaçou atacar o Japão por sua participação nas ocupações do Iraque e do Afeganistão.
domingo, 16 de março de 2008
OEA decide sobre "observadores militares"

Publicado originalmente no Correio Braziliense de 16 de março de 2008.
Crise sul-americana
Brasil articula apoio para que uma missão militar regional seja deslocada à fronteira entre Colômbia e Equador. Objetivo é garantir a segurança contra as Farc e restabelecer a confiança entre os dois países
Claudio Dantas Sequeira, Da equipe do Correio
O governo Lula trabalha nos bastidores para que a reunião de amanhã entre os chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA) seja a pá de cal na crise entre Equador e Colômbia. O ministro Celso Amorim desembarca hoje em Washington, a tempo de reunir-se informalmente com contrapartes, para analisar o relatório da comissão que investigou as circunstâncias do ataque colombiano a um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em território equatoriano, em 1º de março. Diplomatas que participam da redação do informe revelaram ao Correio a disposição de aprovar o envio à fronteira de uma missão de observadores militares composta por países da região.
A iniciativa corresponde à expectativa do Itamaraty pela adoção de “medidas práticas” que evitem novas violações territoriais. A equipe de embaixadores liderada pelo secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, visitou a área onde ocorreu o bombardeio que matou o comandante guerrilheiro Raúl Reyes, “número 2” das Farc. Lá, os investigadores analisaram os restos do acampamento e os cálculos dos militares de Quito sobre a trajetória dos disparos. Os dados reiteram a tese de que o ataque surpresa foi executado a partir de território equatoriano. Da mesma maneira, a delegação da OEA estimou que a área inóspita, de selva densa, é de difícil monitoramento.
Daí a necessidade de enviar uma missão militar multilateral, um mecanismo de segurança para restabelecer a confiança entre as duas nações, que mantêm suspensas as relações diplomáticas desde o dramático episódio. A idéia foi bem recebida pelos presidentes Rafael Correa (Equador) e Álvaro Uribe (Colômbia), além do venezuelano Hugo Chávez — que desempenhou papel especial na crise. Amorim também obteve sinalização positiva da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, no encontro que tiveram em Brasília na quinta-feira. De fato, até o final da semana era a proposta mais consistente na mesa de negociações.
“É a oportunidade perfeita para cooperar em bases regionais para garantir que o terrorismo não ameace civis inocentes”, disse Rice em Brasília. Como a reportagem antecipou, a chefe da diplomacia dos Estados Unidos elogiou o papel de liderança do Brasil e defendeu publicamente que a crise seja debatida na OEA. “Os esforços da OEA tem sido importantes. Talvez seja a hora de a região refletir sobre como ter certeza de que a segurança se estenda pelas fronteiras, e os Estados Unidos serão parceiros nisso”, emendou. Em privado, foi Amorim quem congratulou a colega pelo “papel discreto” jogado pela Casa Branca. “A OEA passou em seu primeiro teste importante. Temos que dar um voto de confiança para ver se a reunião de segunda-feira consolida os resultados”, avalia um graduado diplomata.
Segundo ele, a missão militar é uma opção. “Esta é a fase de testar a idéia para ver se ela decola, mas a porta está aberta para que surjam outras soluções”, ponderou. Na sexta-feira, Insulza garantiu em Bogotá que as discrepâncias entre as versões da Colômbia e do Equador sobre como ocorreu o ataque não devem reavivar a crise política. “Verificamos com detalhes a versão colombiana. Temos também os argumentos do Equador”, emendou o secretário-geral, comentando que ambos os países demonstraram disposição para cooperar na segurança da fronteira binacional. Durante a crise, Correa qualificou o ataque como um “massacre” no qual a soberania do país foi violada. Uribe acusou o vizinho de ter ligações com as Farc.
Precedente
Em 1995, o Brasil liderou a Missão de Observadores Militares Equador-Peru (Momep), criada para solucionar o conflito fronteiriço entre os dois países. Os procedimentos para tal articulação foram resgatados do Protocolo do Rio de Janeiro, de 1942, que previa a intervenção dos países garantes (Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos). A missão durou quatro anos e as Forças Armadas brasileiras participaram com 191 militares, entre coordenadores-gerais, observadores e integrantes do Grupo de Apoio. Embora a crise atual seja, por princípio, distinta daquela de há uma década, autoridades diplomáticas e militares consideram a Momep um importante referencial, por ter sido bem sucedida.
sábado, 15 de março de 2008
O Terrorista Invisível

Coluna Conexão Diplomática, publicada no dia 15 de março de 2008.
Por Claudio Dantas Sequeira
claudio.dantas@correioweb.com.br
No embalo da ofensiva diplomática antiterror iniciada por Condoleezza Rice, desembarca em Brasília na próxima quarta-feira o ministro da Segurança Pública de Israel, Avraham Dichter (foto). A intensa agenda incluirá reuniões com o chanceler Celso Amorim; o ministro da Justiça, Tarso Genro; além dos diretores PF, Luiz Fernando Corrêa, e da Abin, o delegado Paulo Lacerda. “Avi” quer discutir o velho problema do suposto financiamento a Hezbollah e Hamas por comunidades muçulmanas que vivem na Tríplice Fronteira. Também falará de uma nascente célula do partido xiita na Venezuela. Como as autoridades brasileiras mantêm a versão de que não há indícios de terrorismo na região, os EUA apostam nas Farc para motivar o governo Lula a cooperar mais.
O ministro israelense, no entanto, deverá se concentrar na recente morte do libanês Imad Fayez Mughniyad, num atentado em Damasco. Chefe das operações militares do partido xiita pró-iraniano Hezbollah, Mughniyad era perseguido há 25 anos pelo FBI e a Interpol, que o batizaram com a alcunha de “homem invisível”. A ele eram atribuídos os ataques de 1983 contra a embaixada norte-americana em Beirute, o seqüestro e assassinato de William Buckley — chefe da CIA na capital libanesa —, o seqüestro do vôo 847 da TWA em 1985, e os atentados contra a embaixada israelense em Buenos Aires (1992) e a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994. Ao todo, Mughniyad teria provocado a morte de 450 pessoas. Sua cabeça valia US$ 5 milhões.
O Hezbollah protestou de forma veemente contra o assassinato do “líder rebelde”, acusando Israel. Em resposta, nomearam como novo chefe militar seu braço direito, Hajj Talal Hamiyye, o que reacendeu o alerta na comunidade de informações mundo afora, até na América Latina. Hamiyye é tido como um especialista em operações na região, e poderia assim “reativar” a ampla rede de inteligência que o partido e seu braço militar têm por aqui. No alvo de Hamiyye estariam infra-estruturas israelenses e norte-americanas, como representações diplomáticas, associações, comunidades etc. Antes da capital brasileira, Avi passará em Buenos Aires para lembrar os ataques da década passada.
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Igualdade
Na semana em que Condi assinou acordo com o Brasil sobre Combate à Desigualdade Racial, o Departamento de Estado foi classificado na 11ª posição no ranking dos 100 empregadores preferidos pelos negros. É o único órgão governamental a figurar na lista. A pasta de Rice também está elaborando o primeiro levantamento sobre incidentes anti-semitas no mundo.
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Divergência
Apesar da troca pública de gentilezas, Condi e Celso Amorim divergiram frontalmente sobre o papel da Síria no restabelecimento institucional do Líbano. A secretária norte-americana não tolera a participação de Damasco nas negociações de paz. Para o chanceler brasileiro, no entanto, é ingenuidade querer resolver a crise, desencadeada pela morte de Rafik Hariri em 2005, sem considerar todos os atores regionais.
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Enquanto isso, no GSI…
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, engavetou o projeto da Lei contra o Terrorismo — tornada pública pelo Correio há um ano. Sem um instrumento legal para enquadrar atos de violência contra civis ou instituições públicas, a Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais do GSI busca uma alternativa para cobrir as vulnerabilidades do sistema. Em entrevista à coluna, o coronel Fernando Melo explicou a nova iniciativa. Trata-se da criação de grupos de trabalho interministeriais que identificarão no país as chamadas “infra-estruturas críticas”, aquelas de importância estratégica para o Estado e que poderiam ser alvo de alguma ação criminosa.
O passo seguinte é desenvolver uma metodologia de gestão de risco, compreendendo prevenção e reposta imediata. O papel do GSI será centralizar as informações e articular a tomada de ação com os demais órgãos do governo. O primeiro grupo criado, Energia, terá a participação de representantes dos ministérios de Minas e Energia, Agricultura, além da Embrapa, do ONS e da Aneel. Assustou a invasão do MST à usina de Tucuruí, no ano passado. “Se a desligassem, a Região Norte ficaria às escuras, com risco de morte e prejuízo econômico”, diz Melo.
Serão trabalhadas em breve as áreas de transporte, telecomunicações, água e finanças. O GSI crê que será possível se antecipar a greves em setores sensíveis, como a dos controladores de vôo que colapsou a malha área do país no ano passado. Bloqueios em rodovias ou eixos viários importantes também tendem a ser protegidos. As transações bancárias e informações financeiras estratégicas estão na mira do projeto. Tem gente achando que os gastos sigilosos da Presidência com cartão corporativo poderiam ser incorporados ao programa de segurança da informação.
Entrevista - Alireza Aheikhattar
Irã convida Brasil para sua "segunda revolução"
Publicada originalmente no Correio Braziliense em 13 de março de 2008.
O Irã pôs em marcha um ousado programa de privatização que liquidará todas as estatais, com exceção da indústria bélica e da exploração de petróleo. A inédita abertura comercial, que o presidente Mahmud Ahmadinejad chama de “segunda fase” da Revolução Islâmica, poderá desmoralizar o embargo econômico impulsionado pela Casa Branca. “Após a queda do xá, o governo precisou intervir para resgatar a infra-estrutura. Chegou a hora de o setor privado assumir seu papel”, diz o vice-chanceler iraniano, Alireza Sheikhattar. Em entrevista exclusiva ao Correio, ele afirma que Brasil e Irã são países parecidos, “independentes”, e devem impedir que os EUA desmoralizem a ONU. Ele se reuniu ontem com o ministro Celso Amorim, com quem acertou visita oficial do presidente Lula a Teerã ainda este ano.
Como foi a reunião com Amorim?
Excelente. Há muita proximidade de posições. Cremos na justiça internacional, na paz e tomamos decisões de forma independente. Estudei com Amorim áreas de cooperação inéditas. A nova lei de privatização no Irã e de atração de investimentos abre enorme campo para os investidores brasileiros. Para explorar isso, decidimos criar grupos de trabalho em energia, investimentos e comércio. Queremos reforçar os laços políticos e programamos visitas dos ministros e dos presidentes. Vamos nos esforçar para que os encontros ocorram este ano.
Quais áreas serão privatizadas?
Todas, exceto indústrias militares e de exploração de petróleo. Temos 130 empresas, entre petroquímicas e serviços, que serão privatizadas. É uma ótima oportunidade para o investidor estrangeiro. Ele terá garantia de 100% do capital, isenção de impostos e encargos trabalhistas. A área de exploração também está aberta, mas estrangeiros não podem ser donos das reservas e o controle é dividido com o Estado.
Há novas perspectivas para a Petrobras?
A Petrobras tem dois projetos, um no Mar Cáspio e outro no Golfo Pérsico. Ela pode servir de cobertura para empresas americanas. Afinal, pensávamos que a Petrobras era uma empresa brasileira, que decidia sobre suas atividades, mas descobrimos que empresas americanas interferem nas decisões. Pela lei, não há impedimento para a entrada de companhias americanas. Só não queremos que sua presença sirva para espionagem.
O Irã segue o exemplo de China e Índia ao abrir a economia?
Temos um Estado e um governo baseados na lei islâmica, que prega o comércio livre. O profeta (Maomé) e sua esposa eram comerciantes. O regime do xá nunca investiu na infra-estrutura. Com a Revolução Islâmica, decidiu-se recuperá-la e o governo precisou intervir nas duas primeiras décadas. Na primeira fase, criamos usinas, ferrovias, um sistema de transporte aéreo. Nesta segunda fase, o Estado decidiu se retirar e abrir caminho para a iniciativa privada.
A balança comercial bilateral é desfavorável ao Irã. Como mudar isso?
A composição da balança também não é boa, com soja e carne dominando três quartos do comércio. Podemos cooperar em produção de veículos. O Irã é um dos grandes produtores, com 1,1 milhão de unidades anuais. Temos linhas de produção em seis países. Podemos trabalhar juntos, inclusive em terceiros mercados. Podemos cooperar em serviços e tecnologia, como o biodiesel. O Irã é um grande produtor de cana-de-açúcar no Oriente Médio. E, pela situação geográfica, podemos servir de plataforma às exportações brasileiras para 380 milhões de habitantes, e triplicar o comércio atual do Brasil com a região. Com a desvalorização do dólar, seu país deve procurar outros mercados.
Na questão nuclear, que tipo de apoio o Irã espera do Brasil? Nosso programa nuclear é claro, transparente, como atesta o último relatório da AIEA (a agência nuclear da ONU). Ela é a única referência legal, capaz de fazer justiça sobre as atividades de um país nessa área. Temos que impedir os EUA em sua tentativa de enfraquecer a AIEA.
Publicada originalmente no Correio Braziliense em 13 de março de 2008.
O Irã pôs em marcha um ousado programa de privatização que liquidará todas as estatais, com exceção da indústria bélica e da exploração de petróleo. A inédita abertura comercial, que o presidente Mahmud Ahmadinejad chama de “segunda fase” da Revolução Islâmica, poderá desmoralizar o embargo econômico impulsionado pela Casa Branca. “Após a queda do xá, o governo precisou intervir para resgatar a infra-estrutura. Chegou a hora de o setor privado assumir seu papel”, diz o vice-chanceler iraniano, Alireza Sheikhattar. Em entrevista exclusiva ao Correio, ele afirma que Brasil e Irã são países parecidos, “independentes”, e devem impedir que os EUA desmoralizem a ONU. Ele se reuniu ontem com o ministro Celso Amorim, com quem acertou visita oficial do presidente Lula a Teerã ainda este ano.
Como foi a reunião com Amorim?
Excelente. Há muita proximidade de posições. Cremos na justiça internacional, na paz e tomamos decisões de forma independente. Estudei com Amorim áreas de cooperação inéditas. A nova lei de privatização no Irã e de atração de investimentos abre enorme campo para os investidores brasileiros. Para explorar isso, decidimos criar grupos de trabalho em energia, investimentos e comércio. Queremos reforçar os laços políticos e programamos visitas dos ministros e dos presidentes. Vamos nos esforçar para que os encontros ocorram este ano.
Quais áreas serão privatizadas?
Todas, exceto indústrias militares e de exploração de petróleo. Temos 130 empresas, entre petroquímicas e serviços, que serão privatizadas. É uma ótima oportunidade para o investidor estrangeiro. Ele terá garantia de 100% do capital, isenção de impostos e encargos trabalhistas. A área de exploração também está aberta, mas estrangeiros não podem ser donos das reservas e o controle é dividido com o Estado.
Há novas perspectivas para a Petrobras?
A Petrobras tem dois projetos, um no Mar Cáspio e outro no Golfo Pérsico. Ela pode servir de cobertura para empresas americanas. Afinal, pensávamos que a Petrobras era uma empresa brasileira, que decidia sobre suas atividades, mas descobrimos que empresas americanas interferem nas decisões. Pela lei, não há impedimento para a entrada de companhias americanas. Só não queremos que sua presença sirva para espionagem.
O Irã segue o exemplo de China e Índia ao abrir a economia?
Temos um Estado e um governo baseados na lei islâmica, que prega o comércio livre. O profeta (Maomé) e sua esposa eram comerciantes. O regime do xá nunca investiu na infra-estrutura. Com a Revolução Islâmica, decidiu-se recuperá-la e o governo precisou intervir nas duas primeiras décadas. Na primeira fase, criamos usinas, ferrovias, um sistema de transporte aéreo. Nesta segunda fase, o Estado decidiu se retirar e abrir caminho para a iniciativa privada.
A balança comercial bilateral é desfavorável ao Irã. Como mudar isso?
A composição da balança também não é boa, com soja e carne dominando três quartos do comércio. Podemos cooperar em produção de veículos. O Irã é um dos grandes produtores, com 1,1 milhão de unidades anuais. Temos linhas de produção em seis países. Podemos trabalhar juntos, inclusive em terceiros mercados. Podemos cooperar em serviços e tecnologia, como o biodiesel. O Irã é um grande produtor de cana-de-açúcar no Oriente Médio. E, pela situação geográfica, podemos servir de plataforma às exportações brasileiras para 380 milhões de habitantes, e triplicar o comércio atual do Brasil com a região. Com a desvalorização do dólar, seu país deve procurar outros mercados.
Na questão nuclear, que tipo de apoio o Irã espera do Brasil? Nosso programa nuclear é claro, transparente, como atesta o último relatório da AIEA (a agência nuclear da ONU). Ela é a única referência legal, capaz de fazer justiça sobre as atividades de um país nessa área. Temos que impedir os EUA em sua tentativa de enfraquecer a AIEA.
terça-feira, 11 de março de 2008
Peregrinação nuclear...

O número 2 da diplomacia iraniana, Alireza Sheikh Attar, está em Brasília para conversar sobre o investimento da Petrobras no Irã. O projeto de exploração, orçado em mais de US$ 400 milhões, desagrada Washington. Attar também vai falar de comércio e das "próximas ações do programa nuclear iraniano". Na quinta-feira, ele vai dar coletiva à imprensa. No mesmo dia, estará em Brasília a secretária de Estado norte-americana, Condi Rice. O Itamaraty amarrou a agenda de maneria a evitar que ambos se cruzem pelos corredores...
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