Irã convida Brasil para sua "segunda revolução"
Publicada originalmente no Correio Braziliense em 13 de março de 2008.
O Irã pôs em marcha um ousado programa de privatização que liquidará todas as estatais, com exceção da indústria bélica e da exploração de petróleo. A inédita abertura comercial, que o presidente Mahmud Ahmadinejad chama de “segunda fase” da Revolução Islâmica, poderá desmoralizar o embargo econômico impulsionado pela Casa Branca. “Após a queda do xá, o governo precisou intervir para resgatar a infra-estrutura. Chegou a hora de o setor privado assumir seu papel”, diz o vice-chanceler iraniano, Alireza Sheikhattar. Em entrevista exclusiva ao Correio, ele afirma que Brasil e Irã são países parecidos, “independentes”, e devem impedir que os EUA desmoralizem a ONU. Ele se reuniu ontem com o ministro Celso Amorim, com quem acertou visita oficial do presidente Lula a Teerã ainda este ano.
Como foi a reunião com Amorim?
Excelente. Há muita proximidade de posições. Cremos na justiça internacional, na paz e tomamos decisões de forma independente. Estudei com Amorim áreas de cooperação inéditas. A nova lei de privatização no Irã e de atração de investimentos abre enorme campo para os investidores brasileiros. Para explorar isso, decidimos criar grupos de trabalho em energia, investimentos e comércio. Queremos reforçar os laços políticos e programamos visitas dos ministros e dos presidentes. Vamos nos esforçar para que os encontros ocorram este ano.
Quais áreas serão privatizadas?
Todas, exceto indústrias militares e de exploração de petróleo. Temos 130 empresas, entre petroquímicas e serviços, que serão privatizadas. É uma ótima oportunidade para o investidor estrangeiro. Ele terá garantia de 100% do capital, isenção de impostos e encargos trabalhistas. A área de exploração também está aberta, mas estrangeiros não podem ser donos das reservas e o controle é dividido com o Estado.
Há novas perspectivas para a Petrobras?
A Petrobras tem dois projetos, um no Mar Cáspio e outro no Golfo Pérsico. Ela pode servir de cobertura para empresas americanas. Afinal, pensávamos que a Petrobras era uma empresa brasileira, que decidia sobre suas atividades, mas descobrimos que empresas americanas interferem nas decisões. Pela lei, não há impedimento para a entrada de companhias americanas. Só não queremos que sua presença sirva para espionagem.
O Irã segue o exemplo de China e Índia ao abrir a economia?
Temos um Estado e um governo baseados na lei islâmica, que prega o comércio livre. O profeta (Maomé) e sua esposa eram comerciantes. O regime do xá nunca investiu na infra-estrutura. Com a Revolução Islâmica, decidiu-se recuperá-la e o governo precisou intervir nas duas primeiras décadas. Na primeira fase, criamos usinas, ferrovias, um sistema de transporte aéreo. Nesta segunda fase, o Estado decidiu se retirar e abrir caminho para a iniciativa privada.
A balança comercial bilateral é desfavorável ao Irã. Como mudar isso?
A composição da balança também não é boa, com soja e carne dominando três quartos do comércio. Podemos cooperar em produção de veículos. O Irã é um dos grandes produtores, com 1,1 milhão de unidades anuais. Temos linhas de produção em seis países. Podemos trabalhar juntos, inclusive em terceiros mercados. Podemos cooperar em serviços e tecnologia, como o biodiesel. O Irã é um grande produtor de cana-de-açúcar no Oriente Médio. E, pela situação geográfica, podemos servir de plataforma às exportações brasileiras para 380 milhões de habitantes, e triplicar o comércio atual do Brasil com a região. Com a desvalorização do dólar, seu país deve procurar outros mercados.
Na questão nuclear, que tipo de apoio o Irã espera do Brasil? Nosso programa nuclear é claro, transparente, como atesta o último relatório da AIEA (a agência nuclear da ONU). Ela é a única referência legal, capaz de fazer justiça sobre as atividades de um país nessa área. Temos que impedir os EUA em sua tentativa de enfraquecer a AIEA.
sábado, 15 de março de 2008
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