Data: 09/02/2008
O milagre uruguaio
Tabaré Vázquez reiterou ontem que não tentará a reeleição em 2009. A decisão é um exemplo democrático, embora vá na contramão dos vizinhos sul-americanos. Por aqui, bons índices de popularidade geralmente são interpretados pela lógica messiância da permanência no poder. Dentre os líderes regionais que tive a oportunidade de entrevistar, Vázquez me surpreendeu pelo estilo distinto, humilde e gentil. Com um jeitão meio mineiro, esse médico-presidente faz o Uruguai avançar quieto, ao passo de uma mini-Índia ou um moderno Vietnã sul-americano, considerando as proporções territoriais (175 mil km2) e o ritmo de crescimento (PIB de 7% em 2006).Uma população instruída e baixos índices de corrupção corroboram a vocação de país desenvolvido.
Até a metade do século 20, o Uruguai era a “Suíça da América do Sul”. Tempos em que lã e carne reinavam na pauta exportadora, enquanto “blancos e colorados” administravam juntos democracia sui-generis de dar inveja. Em seu renascimento, o sol uruguaio promete trazer de volta o brilho daquele período. Hoje, o agronegócio incorpora a exportação de grãos, e a balança comercial se diversifica, destacando-se a celulose e subprodutos da madeira; lácteos, têxteis. Mostra a cara também no competitivo e globalizado setor de tecnologia da informação (TI), que já responde por 3% do PIB de U$38 bilhões. Esses avanços, em boa parte, são garantidos por um eficiente sistema de “zonas francas”, a principal base de negócios no país.
O viés tecnológico, por exemplo, tem seu porto na chamada “Zonamerica” — espécie de resort empresarial onde executivos andam em carrinhos de golfe e 6 mil funcionários têm ao alcance restaurantes, centros de saúde, academia. O pacote de benefícios inclui mão de obra qualificada, isenção de impostos para a importação de bens e equipamentos, e subsídio a tarifas de telefone e internet. A indiana Tata Consulting Services (TCS) instalou ali o centro regional de desenvolvimento de softwares. Ganhou a companhia de Merrill Lynch, BBVA e outros gigantes. O governo exige que 75% dos empregados sejam uruguaios e tenham seus direitos. Até 2010, os postos de trabalho vão dobrar.
Há outras dez zonas especiais no Uruguai, dedicadas a atividades fabris, comerciais, financeiras e de informática. Montevidéu prepara a criação de um novo parque tecnológico em La Teja. Até o final do ano será inaugurado o novo aeroporto, a 18 km da capital. A segunda fábrica de celulose começa a ser erguida e a mineradora Rio Tinto quer construir porto para escoar a produção de sua mina em Corumbá. As multinacionais Bom Gosto (brasileira) e General Mills (americana) colocarão US$ 50 milhões em duas plantas processadoras em San José.
Cabe lembrar que, em 2007, o Brasil respondeu por 22,4% das exportações uruguaias (US$ 4,6 bilhões) — a Argentina absorveu 18,7%. O movimento de turistas brasileiros no Uruguai cresceu 35%, auxiliando na retomada da atividade que vem sofrendo com a crise das papeleiras. Para assessores do Planalto, o presidente uruguaio reclama “de barriga cheia” das assimetrias do Mercosul. Já as queixas da Casa Rosada contra os investimentos no vizinho platino teriam um fundo de inveja. Talvez Vázquez esteja cansado de alimentar sentimentos mesquinhos, que acabam degenerando numa batalha de propaganda suja e espionagem industrial.
Tecnologia?
Um funcionário de Moscou me chamou a atenção sobre a nota da semana passada que tratava do plano de Nelson Jobim de trazer para o Brasil um parque para manutenção dos Sukhoi. "Manutenção nós fazemos, mas transferir tecnologia vai ser difícil", desabafa. A idéia de Jobim era boa, mas parece que faltou combinar com os russos…
Sigilo enterno
Itamaraty e Casa Civil concordaram em manter o sigilo eterno sobre documentos secretos com informação sensível à soberania e à integridade territorial, como os sobre a Guerra do Paraguai. "A harmonia é total", garante um colaborador. Aliás, o arquivo do Itamaraty sofreu reforma recente, com a instalação de sistemas informatizados, controle de temperatura e umidade. Investimento para garantir segredos eternos.
Esquecido
Brasil e Portugal têm acordos de parceria em matéria de Defesa desde 2005. Mas os textos, embora firmados pelo Executivo, nunca entraram em vigor. Estão parados no Congresso Nacional há mais de ano. Um deles trata da "Proteção de Informação Classificada", fundamental para os projetos de investimento da Embraer em terras lusitanas. Vamos ver quanto tempo leva para aprovarem a aliança estratégica com a França.
Colecionador
Cena insólita, no Pontão. Amontoados num fusca verde, ano 1967, os membros da cúpula da embaixada da França — salvo o embaixador. Ao volante, o primeiro-secretário Aric Amblard, um aficcionado por automóveis antigos. Para conseguir o volks, que está em perfeito estado, o diplomata gastou a sola do sapato nas cidades satélites do DF. Valeu a pena!
Data: 26/01/2008
Parceria estratégica
Brasil e França estão prestes a firmar uma inédita parceria estratégica na área de defesa. Não se trata apenas da compra de aviões, submarinos ou outros equipamentos militares. Os governos de ambos os países negociam a assinatura de um acordo do tipo SOFA (Status of Forces Agreement), pelo qual se eliminarão as exigências legais para o trânsito de militares franceses em território brasileiro. A partir daí, as duas forças ficarão livres de prestar contas às aduanas e os efetivos só poderão ser processados civil ou criminalmente na Justiça de suas respectivas pátrias. Permite ainda a prestação de serviços no outro país, condição básica para convênios que compreendem troca de tecnologia e a visita constante de técnicos.
Mas o estabelecimento de um “Acordo de Status das Forças” também significa a ante-sala para a instalação de bases militares no país signatário. Foi assim, por exemplo, que os Estados Unidos ampliaram sua presença no planeta durante o século 20. Os franceses estão eufóricos, pois tentavam arrancar essa parceria dos brasileiros desde 2005. A caserna, que sempre foi contra e até rejeitou proposta semelhante dos Estados Unidos, cedeu ante a promessa do reaparelhamento.
Uma missão de representantes dos ministérios de Relações Exteriores, Defesa e Fazenda passou a semana em Paris finalizando os detalhes do documento, que será firmado pelo ministro Nelson Jobim nos próximos dias.
É o primeiro do SOFA que a França assina com um país fora da Otan, num momento em que Lula e Nicolas Sarkozy se preparam para colocar a pedra fundamental da ponte que ligará o Brasil à Guiana Francesa. O encontro será no dia 12 de fevereiro. Para abril, já está marcado treinamento dos pilotos franceses no porta-aviões São Paulo.
Guerra Fria
Além da oposição e dos jornalistas, também os diplomatas brasileiros são espionados na Bolívia. Para tratar de temas sensíveis, o embaixador e os adidos militares optam por linha telefônica codificada, cujo segredo é trocado a cada mês. “Quem montou o novo sistema de espionagem boliviano foram os cubanos, com apoio dos venezuelanos”, garante fonte graduada. Nesta semana, o comandante da Polícia Nacional Boliviana, general Miguel Vazquez, admitiu o uso político dos serviços de inteligência do país.
Herança
Benjamin Strong foi presidente do Fed por 14 anos. Deixou o posto ao morrer em outubro de 1928. Um ano depois, o mundo assistiu à quebra da Bolsa de Nova York. Strong havia deixado de herança um excesso de liquidez que artificializou o valor dos ativos e entorpeceu o mercado financeiro. Alan Greenspan esteve à frente do Fed por 20 anos, até 2005. Sustentou a mais longa expansão econômica da história americana, com doses constantes de liquidez.
Fazendo a Corte
Lula estará em Salvador na segunda-feira para a cerimônia que marca a decisão do príncipe Dom João de autorizar a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional. Portugal será representado pelo embaixador no Brasil, Francisco Seixas da Costa.
Propaganda
A revista trimestral Diplomacia, Estratégia e Política, editada pelo Itamaraty, é financiada pela construtora Norberto Odebrecht, pelo grupo Andrade Gutierrez e pela Embraer. As companhias emplacam a cada número informes publicitários de suas atividades na região. Mas os textos não são identificados como tal, passando a idéia de que fazem parte do conteúdo crítico da edição.
Bloco da paz
A embaixada da Colômbia em Brasília convoca para a próxima quinta-feira, dia 31, ato público em solidariedade aos reféns das Farc e repúdio à guerrilha. Todos de branco, às 12h, no Pátio das Bandeiras. Por causa do Carnaval, o embaixador Tony Jozame Amar antecipou-se à iniciativa internacional, marcada para 4 de fevereiro.
Líder comum
Em editorial da revista Weekly Standard, William Kristol clama aos conservadores que escolham seu candidato republicano sem cair na “nostalgia Reagan”. Filho de Irving, pai do neoconservadorismo, Kristol diz que McCain, Huckabee e Rommey estão longe do ideal. Editor da principal tribuna dos neocons, Kristol explica que “um presidente americano normal” é aquele “com visão ideológica semicoerente”, “veículo para um movimento ideológico”. Cita Franklin Roosevelt, John Kennedy e George W. Bush. “Eles podem encampar a causa de um movimento que trabalhe com eles ou através deles. Mas não são Reagans”.
Data: 02/02/2008
Jogada de mestre
O ministro Nelson Jobim desembarca hoje em Moscou para a segunda fase de sua turnê internacional pelo mercado de defesa. Leva na maleta uma proposta que promete tirar o sono de ninguém menos que… Hugo Chávez. É que as cúpulas do Kremlin e do Planalto negociam em segredo a instalação em território brasileiro de um parque industrial para manutenção dos caças de combate russos e, possivelmente, helicópteros. Os mesmos que o caudilho venezuelano tem adquirido, às dezenas, com seus petrodólares. Chávez gastou US$ 3 bilhões em 24 Sukhoi Su-30MK2 e 33 helicópteros blindados de ataque, inclusive o poderoso Mi-35. Mas o acordo foi meramente comercial e não incluiu troca de tecnologia. Se fechado o negócio com o governo Lula, Chávez será obrigado a fazer a manutenção de suas aeronaves no Brasil. Nas palavras de um diplomata, “ele virá comer nas nossas mãos”.
Nunca antes na história deste país… se teve chance tão boa para garantir superioridade estratégica em relação à Venezuela, com incrível poder de contenção das estripulias bolivarianas. Os russos pensaram em montar seu aparato industrial lá em solo venezuelano, mas toparam com dois problemas: a carência de mão-de-obra especializada e um desgaste desnecessário (e extremamente arriscado) com os EUA — uma espécie de reedição da crise dos mísseis em Cuba, em 1962.
Para efeitos do novo programa de reaparelhamento brasileiro (FX-2), os russos mantêm a oferta de transferência de tecnologia a partir da compra de 36 aparelhos Sukhoi-35. Também se analisa a participação do programa russo PAK-FA T-50, um avião de combate de 5ª geração, que já conta com a participação da Índia. Para Lula, a parceria com os russos é complementar à aliança estratégica com a França. Enquanto a produção de helicópteros Cougar com o consórcio EADS acalma o poderoso lobby da Embraer, o negócio com os aviões russos satisfaz o comando da FAB. A Marinha terá seus submarinos e o Exército, seus blindados, sejam de Paris ou Moscou. Quanto mais diversificação, maior a autonomia do país.
Bush na fogueira
A mostra Arte nas embaixadas, em exposição na residência do embaixador americano, Clifford Sobel, reúne pinturas e esculturas de renomados artistas contemporâneos, como Pollock e Rauschenberg. Chama a atenção o óleo de Pusette-Dart, intitulado Burning Bush.
Ele jura que não, mas o ministro Roberto Mangabeira Unger aos poucos se revela o mais novo trunfo de Lula para contatos internacionais, especialmente no mundo desenvolvido. Ele está por trás dos preparativos para a atual viagem de Jobim. Em novembro do ano passado, Mangabeira esteve na França para acertar o encontro com Nicolas Sarkozy. E apesar de não ter emplacado uma audiência com Vladimir Putin para esta semana, articula encontro com Dimitri Medvedev, protegido do líder russo e seu candidato para as eleições presidenciais de março.
Marco Aurélio Garcia seguirá dominando os temas latino-americanos, mas corre o risco de perder o título de “professor” que tanto aprecia. Afinal, Mangabeira lecionou para Barack Obama, já travou discussão com o Nobel Joseph Stiglitz e seus escritos ocupam a metade de uma prateleira da biblioteca da Universidade de Harvard.
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Suspiro final
A diplomacia venezuelana profissional agoniza. O alerta foi dado pelo presidente do Colégio de Internacionalistas da Venezuela, Juan Francisco Contreras. Em entrevista ao El Universal, ele denunciou a “politização” do serviço exterior: “Lamentavelmente, o fator ideológico está prevalecendo”. Corre nos corredores da Chancelaria que as diretrizes da política exterior são ditadas por Hugo Chávez no programa de rádio Aló, Presidente.
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Ideologia fora
O Itamaraty aproveitou as mudanças no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD) para excluir da bibliografia recomendada dois títulos polêmicos: Chutando a Escada, de Ha-Joon Chang; e Brasil, Argentina e Estados Unidos: Conflito e Integração na América do Sul, de Luiz Alberto Moniz Bandeira. As obras foram tachadas de “ideológicas” pelos críticos e alimentaram intenso debate dentro e fora do ministério.
Data: 29/12/2007
Diplomacia brasileira será posta à prova em 2008
Um ano de grandes desafios espera o governo Lula na seara externa. Não faltarão oportunidades para a diplomacia provar que está preparada para jogar de igual para igual no tabuleiro das grandes potências internacionais. E se o Brasil é o BRIC da vez, deve ser capaz também de criar novas regras para esse jogo, de dinâmica implacável. Isso consiste em conseguir levar as negociações da Rodada de Doha a um bom termo. Destravar as negociações de um tratado de livre comércio com a União Européia e buscar acordos equilibrados com novos parceiros, como ocorreu com Israel, em dezembro.
Os países da Ásia do Leste (Asean) esperam Celso Amorim e Lula, que programam um forte calendário de visitas. Para além das trocas comerciais, o Itamaraty se lança na inédita função de mediador no histórico conflito entre palestinos e israelenses. Para isso, Celso Amorim vai ao Oriente Médio no primeiro trimestre. Seu papel pode se tornar relevante, num ano em que será realizada a segunda edição da Cúpula América do Sul-Países Árabes, no Catar.
Também será preciso consolidar os avanços de Bali para a construção de uma agenda para o desenvolvimento sustentável que seja respeitada e cumprida por todos. Fazer com que se torne um sucesso concreto a cúpula sobre biocombustíveis, no segundo semestre, é fundamental nesse sentido. Atenta ao que se passa do outro lado do mundo, a diplomacia terá de manter também os olhos bem abertos em relação aos vizinhos. As dificuldades no processo de integração seguem as mesmas, com a adesão da Venezuela ao Mercosul como ponto nevrálgico.
Doha em 2009?
A diplomacia brasileira criou uma estratégia para derrubar as críticas sobre a falta de resultado nas negociações de Doha, na OMC. É que a Rodada do Uruguai, que antecedeu a atual e abriu os debates sobre um comércio internacional mais justo, durou oito anos. “Temos ainda dois anos de folga”, diz um graduado diplomata, em referência aos seis anos consumidos pelas atuais discussões. Será que cola?
Cariocas nascem bambas
A Casa Bolivariana do Rio de Janeiro está com dificuldades para convencer idosos com problemas de visão a entrarem num avião para Caracas. Os velhinhos não engolem a generosidade do Hugo Chávez, que já levou pernambucanos para operar doenças como a catarata no âmbito da Operação Milagro. “Precisamos encher o avião, mas eles são desconfiados”, revela um dos agentes chavistas. Os cariocas enxergam longe!
Reforço
Desembarcou em Brasília neste mês o segundo secretário Kenichiro Kobayashi, que chega para reforçar o quadro da embaixada do Japão no Brasil. Ele está lotado na seção política, mas na prática sua função é a de adido de inteligência.
Refugiados
A representação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil assinou convênio com a Universidade Católica de Santos (Unisantos) para a instalação da Cátedra Sérgio Vieira de Mello. É a primeira sobre refugiados.
Enfim, o pijama
O ex-espião do Itamaraty Jacques Guilbaud completa hoje 70 anos e se despede da polêmica carreira diplomática. Deixa a embaixada de Guiné Conacri e volta a Brasília, onde deve ser casar! Oficialmente, ele já deveria ter saído, pois o ministro Celso Amorim baixou portaria para a remoção do diplomata em 26 de outubro. O agrément foi enviado em setembro, e até há poucos dias não havia sido respondido pelo governo guineano, segundo Guilbaud. Teve quem pensasse que ele havia engavetado o documento, como fez o ex-deputado Paes de Andrade em Lisboa, em 2006.
Data: 22/12/2007
O último lance de Chirac no caso Ingrid Betancourt
Em fevereiro deste ano, o então presidente da França, Jacques Chirac, arriscou um último lance de sorte para tentar libertar a ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Apostando uma vez mais na ação unilateral, apesar da crise de 2003, Chirac autorizou uma nova missão de resgate. Um Hércules C-130 militar estava pronto para partir de Paris com a equipe de busca e salvamento, diplomatas e agentes da DGSE (o serviço secreto francês). Pediram autorização ao Brasil para sobrevoar o espaço aéreo, mas não revelaram o motivo da viagem. O serviço de inteligência brasileiro desconfiou e acabou descobrindo o plano numa investigação preventiva. Por causa da mentira, o sobrevôo foi negado e a aeronave francesa nunca decolou da Base Aérea de Villacoublay.
Crise diplomática
Ação semelhante foi orquestrada em julho 2003, quando Chirac autorizou o chanceler Dominique de Villepin a negociar o resgate de Betancourt. Enviou secretamente um C-130 a Manaus com outra equipe,
mas aeronave acabou interceptada pela PF, frustrando
a libertação e deflagrando uma crise diplomática.
Amigos
Villepin foi amigo de faculdade de Ingrid Betancourt, dizem até que tiveram um romance, o que levou a imprensa francesa a criticá-lo por misturar questões pessoais com assuntos de Estado.
Tempo
Se Chirac tivesse se envolvido pessoalmente no caso de Betancourt, como o faz Nicolas Sarkozy, teria sido possível poupar tanto tempo e sofrimento?
R$ 149,5 milhões
é o que o Itamaraty vai receber como crédito suplementar, aprovado pelo Congresso no apagar das luzes de 2007. Do total, R$ 96,8 milhões vão para a conta do Mercosul. O governo vai usar o resto pagando as dívidas com Unesco, OCDE, AIEA, OIT, entre outros organismos.
Petrodólares
Parlamentares bolivianos da oposição querem vir ao Brasil investigar as circunstâncias envolvendo o pouso de emergência de um avião militar venezuelano em Rio Branco, no dia 6. Eles receberam informação confidencial de que o adido militar venezuelano, que foi ao Acre socorrer a tripulação, viajou num Learjet da Força Aérea Boliviana, levando uma valise com cerca de US$ 30 mil em cash. O dinheiro foi usado para comprar cerca de 19 mil litros de combustível, o suficiente para ir até Maiquetía (Venezuela).
Como é?
O comandante do Exército, Enzo Martins, cancelou sua visita à Índia no início do mês por questões de agenda. Há quem diga que Enzo ficou magoado por ter seu nome confundido no Cerimonial do Itamaraty pelo do antecessor Francisco Roberto Albuquerque. O ex-comandante também ficaria se soubesse que trocaram seu nome do meio por “Noberto”. A mancada pode ser conferida na agenda de eventos do mês no site do ministério.
Descanso merecido
O chanceler Celso Amorim tirou duas semanas de férias para passar as festas de fim de ano com os netos na Suíça. Eles devem fazer um tour pela Itália, país que o ministro adotou. A equipe de apoio do gabinete também ganhou uma folga merecida.
Novo alvo
A Petrobras está reduzindo sua aposta na América Latina. Dos R$ 6,828 bilhões destinados à área internacional em 2008, 32% serão investidos nos Estados Unidos, 30% na América Latina, 19% na África e os 19% restantes nos demais países.
Cachaça classificada
Washington prometeu revisar a classificação da cachaça brasileira na lista de importados. Atualmente, o produto aparece como “rum”, obrigando produtores brasileiros a pagar taxa extra US$ 0,19 por litro. Será preciso criar a denominação “cachaça” no Code of Federal Regulations, como produto tipicamente brasileiro, distinção já existente no caso da tequila mexicana.
Data: 15/12/2007
Políticas compensatórias viram febre mundial
Brasil e EUA acordaram trocar experiências entre o Bolsa Família e o Opportunity, experiência nova-iorquina que deve ganhar caráter nacional. O acerto foi feito na visita do subsecretário de Estado americano, Thomas Shannon. Recompensar com renda extra o bom comportamento de indivíduos se transformou numa febre mundial. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, é o homem do momento quando se fala em políticas de transferência de renda. Em setembro passado, ele lançou oficialmente o Opportunity NYC, sua própria versão do programa Oportunidades que o México criou nos anos 90 para a população rural. Em vez de usar orçamento oficial, Bloomberg convenceu a iniciativa privada a contribuir: US$ 53 milhões.
Cerca de 5 mil famílias de baixa renda, na mais importante metrópole do mundo, recebem o dinheiro com a condição de que participem de reuniões de pais e mestres e mantenham um seguro saúde, fazendo check-ups periódicos. Há outras recompensas, entregues diretamente a alunos que tiram boas notas na escola. Da última vez foram celulares com minutos de graça. O governo de Arlington (Vírgínia) paga para que casais se mantenham unidos, a fim de conter a crescente onda de separação que atinge a cidade. Eles devem manter uma conta conjunta e participar de cursos de matrimônio. Na mesma lógica, Washington ajuda famílias a adquirirem um imóvel. Para cada dólar poupado, o governo acrescenta três, até US$ 12 mil.
O Canadá tem programa semelhante, cujos fundos são usados para educação, treinamento e a abertura de negócio. Na Itália, moradores da cidade de Varallo Sesia ganham 50 euros se conseguirem perder 3kg em um mês. A partir de 2009, o Reino Unido vai doar US$ 250 para grávidas que pararem de fumar, beber e concordarem em ser acompanhadas por um especialista em nutrição. Berlim paga US$ 200 por cada membro da família que compareça regularmente ao médico.
Os primeiros modelos de políticas compensatórias surgiram na década de 80. Mas foi nos anos 90 que os populares programas de promoção da educação e de melhor nutrição entre os pobres ganharam respaldo oficial. Organizações não-governamentais adaptaram o conceito para países como o Afeganistão, onde o Programa Mundial de Alimentos distribui latas de óleo de cozinha a famílias que matriculam suas filhas na escola. Em Pequim, os trabalhadores que ganham menos de US$ 100 também têm ajuda do Estado. Além disso, o governo chinês fornece ajuda a idosos e deficientes. Há os chamados Comitês de Vizinhança, que relatam aos órgãos competentes a necessidade de ajudar uma pessoa, abrindo conta em banco para depositar o dinheiro e fiscalizar seu uso. No Chile, o governo limitou em dois anos o prazo do benefício. Na Nicarágua, o Hambre Zero consiste em doar a cada família uma vaca e três galinhas.
Thomas Shannon não conseguiu ser recebido pela ministra Dilma Rousseff e teve que adiar sua volta para poder conversar com Marco Aurélio Garcia. O assessor de Lula pediu que a audiência com Shannon fosse em espanhol. De duas, uma: Marco Aurélio não se garante no inglês ou não sabe que o americano viveu no Brasil e domina o português. Será que a língua oficial do Planalto mudou?
Desagravo à ONU
O Marrocos repreendeu o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, por causa da realização de um congresso do grupo separatista Polisário em uma área do Saara Ocidental que Rabat considera seu território. A coluna obteve cópia da virulenta carta de protesto enviada a Ban pelo chanceler marroquino, Taib Fassi Fihri. "Trata-se de uma provocação perigosa", diz. Seu governo realiza amplas gestões internacionais por um plano de paz, mas ameaçou recorrer à força para impedir a realização do encontro neste fim de semana.
Judeus preocupados
Lideranças judaicas de Brasil, México, Venezuela, Argentina e outros países latino-americanos se reuniram em Hollywood, para discutir uma estratégia de unificação regional. Estão preocupados com a crescente influência do Irã — que abriu embaixadas no Chile e na Nicarágua — e a estreita relação de Hugo Chávez com Mahmud Armadinejad. Estiveram na pauta as batidas policiais em escolas judaicas na Venezuela. Diretora do Instituto Latino-americano do Comitê Judaico Americano, Dina Siegel Vann acha que é preciso fortalecer o lobby político judaico na região.
Superavitário em energia
Em uma América do Sul à beira do apagão, a Colômbia surge como único país superavitário em energia. Não à toa tem servido de plataforma para grandes companhias como Votorantim, Synergy, Petrobras, Gerdau, Camargo Correa e Acesita, Vale e outras. A Avianca retomará os vôos diretos entre Brasil e Colômbia, o que incrementará os negócios bilaterais e o turismo — que este ano cresceu 35%. Mérito, em boa parte, das articulações do embaixador Mario Galofre Cano, que se despede de Brasília. Em seu lugar virá Tony Jozame Amar, que foi vice-ministro de Habitação do governo Álvaro Uribe.
Data: 17/11/2007
Petrobras suspeita de “Tupi” em Cuba
A Petrobras voltará a buscar petróleo nas águas profundas de Cuba no Golfo do México. Trabalha com a análise preliminar sobre uma reserva com potencial de meio bilhão de barris, com capacidade para produzir 100 mil a 150 mil barris/dia de óleo cru — similar a do poço de Tupi, na Bacia de Santos. O avanço na tecnologia de prospecção a 7 mil metros de profundidade alimenta as esperanças da ilha caribenha pela auto-suficiência. Um memorando técnico foi assinado há cerca de um mês e meio entre a estatal brasileira e a companhia Cubana de Petróleo (Cupet). O anúncio oficial será feito na visita do presidente Lula a Havana em dezembro.
A viagem, previamente marcada para os dias 22 e 23, foi adiada em um mês para que se pudesse acertar a ampla pauta de cooperação. Nela está, por exemplo, o desenvolvimento conjunto de vacina contra a meningite para ser exportada a países africanos. Também o aumento do intercâmbio comercial, depois da última feira internacional de Havana que reuniu 450 empresários brasileiros. O interesse brasileiro em abraçar essa nova Cuba, sob comando de Raúl Castro, se reflete nas recentes visitas dos ministros Miguel Jorge (Desenvolvimento) e Altemir Gregolin (Pesca).
Mais diplomatas
140 VAGAS serão abertas no Itamaraty em 2010 devido a uma brecha legal. É que até 2009 os candidatos egressos do Rio Branco preencherão as 400 vagas extras previstas na Medida Provisória 319, de 2006. O ministério dispõe tradicionalmente, a cada ano, de cerca de 35 vagas regulares, por causa da aposentadoria dos diplomatas das turmas antigas. Esse crédito não está sendo usado, e o ministro Celso Amorim espera contar com ele para ampliar um pouco mais o quadro oficial.
Resistência
Não é só a Venezuela que pena para se aproximar do Mercosul, diante da resistência dos legislativos do Brasil e Paraguai. Cuba, que assinou acordo de complementação econômica com o bloco regional sul-americano, espera há um ano que os paraguaios votem o texto.
Imunidade
O embaixador da Síria, Ali Diab, está arrumando as malas depois de quatro anos em Brasília. Deixa marca como um dos diplomatas árabes mais ativos e um dos mais polêmicos por essas bandas. Com acesso total à cúpula lulista, Diab facilitou a aproximação entre Brasil e Síria, elevando o comércio bilateral. Mas também foi alvo de dois inquéritos policiais, suspeito de uso ilegal de doleiros e lesão corporal de uma funcionária da embaixada.
Compañeros
O governo não esperou os resultados oficiais das eleições na Eslovênia, no domingo passado. Logo enviou nota felicitando o esquerdista Danilo Turk pela vitória. Durante a campanha, Turk defendeu sua eleição argumentando que era amigo pessoal de Celso Amorim.
Antifraude
Será instalado nas representações do Brasil no exterior um sistema digital para emissão de documentos, certidões e passaporte. Os diplomatas estão sendo treinados para operar o novo banco de dados, que terá link com TSE, Fazenda, Polícia Federal e Serviço Militar. "Será à prova de fraudes", diz um graduado diplomata. A automação também irá liberar o quadro de pessoal, permitindo que diplomatas, antes chafurdados em burocracia, possam ser deslocados para o trabalho de campo.
Sushi
O dia-a-dia dos diplomatas não é assim um glamour. Engana-se quem pensa, por exemplo, que o embaixador do Japão no Brasil, Ken Shimanouchi, pode comer sushi todos os dias. “É muito caro”, garante. Como não é fácil nem barato encontrar peixe fresco no meio do Planalto Central, o jeito é se virar com o PF básico do brasileiro: arroz, feijão, massa, bife e salada.
Em baixa
Aliás, a desvalorização do dólar tem afetado o custo de vida da diplomacia na capital federal. Até agora, poucas foram as embaixadas que tiveram o salário de seu staff reajustado.
Data: 10/11/2007
Ex-araponga quer ampliar mandato
O diplomata Jacques Guilbaud está confiante de que seguirá no comando da embaixada brasileira em Guiné-Conacri. Ele deveria deixar o posto no final deste ano, quando completa 70 anos e é obrigado a se aposentar. Mas já apelou ao presidente Lula para conseguir esticar o mandato. Se depender do Itamaraty, Guilbaud pode ir separando o pijama. É que ninguém quer mais problemas depois da revelação de que o embaixador foi agente do serviço secreto da diplomacia e colaborou na perseguição política. "Há uma fila de ONGs de direitos humanos no nosso pé", diz um graduado diplomata.
Em Conacri, no entanto, ninguém liga para o passado
obscuro de Guilbaud, que se transformou numa espécie de celebridade. É convidado para todos os eventos, desde batizado até casamento, passando por programas de TV e jogo de futebol. "Eu dei o pontapé inicial na partida entre as seleções de Angola e Cabo Verde", comemora. Em sua defesa, o ex-espião diz que elevou o comércio bilateral de zero para US$ 10 milhões anuais. Também tem ajudado a Vale do Rio Doce nas negociações para explorar minério de ferro lá e conseguiu que a CNBB abrisse uma Pastoral da Criança num país em que 67% da população é muçulmana. "Será um escândalo se me tirarem daqui. O premiê e o chanceler guineano me disseram que sou o diplomata mais ativo no país."
Clube fechado
Pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, as indicações políticas de pessoas alheias à carreira do Rio Branco foram expurgadas de todos os postos de chefia, inclusive no exterior. Não há mais nenhum embaixador que não seja cria da Casa. Mas a festa pode durar pouco. Há muita pressão partidária de outros ministérios para injetar nas embaixadas todo tipo de funcionário, como adidos jurídicos, de inteligência, comerciais e por aí vai.
É oportunidade de ouro para engordar o contra-cheque.
Correio Braziliense
Assunto: Mundo
Título: 1e Conexão diplomática
Data: 19/01/2008
Crédito: Claudio Dantas Sequeira
Claudio Dantas Sequeira
As diplomacias do Brasil e do Reino Unido fizeram as contas e decidiram firmar um pacto de silêncio em torno de dois problemas de fundo judicial: o assassinato do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, no metrô de Londres, em 2005, e a condenação do professor inglês Craig Eliot Alden, acusado de abusar de menores no Abrigo Warboys de Planaltina, em 2000. Os dois casos povoaram as manchetes da imprensa mundial, mobilizando o aparato diplomático de ambos os países como meio de pressão política para se buscar justiça. “Eles não nos amolam mais com o caso de Charles de Menezes e nós engavetamos o Craig Alden”, sintetiza um diplomata britânico.
A decisão de abandonar Craig Alden foi externada pelo Foreign Office no final de 2007, em carta à mãe do inglês, obtida pelo Correio. “Imagino que você se sinta desapontada por nós não submetermos mais nenhuma representação em favor de Craig, mas espero que entenda que não podemos interferir no processo judicial de outros países, assim como outros países não podem interferir em nossos processos judiciais”, escreveu Neil Hulbert, da seção de América Latina da Chancelaria britânica. Enquanto se acumularam as falhas no processo contra o inglês, ninguém foi responsabilizado pelo assassinato do brasileiro.
Em dezembro, o STF indeferiu pedido de habeas corpus liberatório impetrado pela ONG EyeLegal. A organização alega falhas no processo contra Alden: “Cerceamento de defesa, ilegitimidade da ação do Ministério Público, ausência de fundamentação dos despachos que receberam as denúncias, inquirição de testemunhas sem a presença do advogado de defesa e do acusado, intimação de defensor residente em outra comarca por meio de carta registrada com aviso de recebimento que se extraviou, deficiência técnica da defesa, inépcia da denúncia, que não informa como nem quando teriam sido cometidos os crimes e prescrição retroativa desses crimes”.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
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Um comentário:
conheço craig e não acredito que cometido tais crimes.
paulo oliveira
pauloexpres@yahoo.com.br
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