O procurador italiano Giancarlo Capaldo está assistindo ao trabalho de uma década escoar pelo ralo da história. Nos últimos dias confidenciou a amigos as escassas esperanças no avanço da Causa Condor. Disse sofrer pressões e vê movimentos de sabotagem do processo contra 140 ex-militares sul-americanos, 11 brasileiros, envolvidos na morte de 25 cidadãos italianos nos anos 1970. No início da semana, ele enviou confidencialmente a grupos de direitos humanos de Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Peru e Bolívia um apelo urgente por informações. Quer saber em que ponto estão os processos associados à Operação Condor nos países, se há sentenças e o nome dos juízes. “Estou me dirigindo a todos que querem conhecer a verdade”, confirmou à coluna, por telefone, de Roma.
Em público, Capaldo evita polemizar. Mais: garante que os ex-militares brasileiros serão processados e condenados. “A fundamentação do processo está completa. Temos fortíssimos elementos para a acusação”, emenda. Ele sabe que apenas cinco indiciados estão vivos. Diz que enviou o pedido de extradição ao Brasil, embora até agora nada tenha chegado ao Itamaraty ou ao Ministério da Justiça. Em dezembro, o escritório brasileiro da Interpol recebeu mensagem com os nomes dos indiciados e avisou que a Justiça não extradita nacionais. “Vou esperar ser notificado oficialmente para tomar uma decisão”, insiste. Capaldo explica que levou dez anos para concluir o processo por causa da dificuldade de recolher provas fora da Itália.
Passados dois meses desde que fez o pedido de captura internacional, contabiliza revezes. Na Itália, a Justiça anulou a prisão do capitão uruguaio Jorge Tróccoli. Do Uruguai, retornaram os 31 pedidos de extradição de ex-repressores por “vícios de forma”. “Queríamos apenas antecipar o pedido pela Interpol, mas agora vamos enviar pelo Ministério de Assuntos Exteriores”, justifica. Sobre Tróccoli, a Procuradoria recorreu da decisão e o caso está nas mãos do Superior Tribunal de Justiça. Há quem veja nisso tudo a mão da “Propaganda Due”, ou “P2”, a loja maçônica italiana criada em 1966 como uma espécie de serviço secreto da Maçonaria. Ligada à CIA e ao M-16 britânico, ajudou na caça de comunistas na Europa e na América do Sul.
Foi descoberta no anos 1980 num escândalo financeiro envolvendo o Banco do Vaticano. Um agente da CIA vazou lista parcial com os membros da P2, dentre eles, Silvio Berlusconi. Também estavam lá políticos e militares sul-americanos, como o argentino Emílio Massera. Dizem que o paraguaio Alfredo Stroessner e o chileno Manuel Contreras eram ligados à P2. De brasileiros, apenas Jorge de Souza e Pedro dos Santos, nomes genéricos demais. A relação da P2 com a Operação Condor é latente, assim como a influência do Forza Itália na queda do premiê Romano Prodi há um mês. A ativista argentina Cláudia Allegrini me deu sua própria versão para a demora de dez anos na conclusão do processo de Capaldo. “Berlusconi fez questão de engavetá-lo quando estava no poder.”
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Lobby verde
Enquanto russos e britânicos participavam do fórum sobre mudança climática nesta semana, uma comitiva de deputados americanos fazia agenda paralela em Brasília. Liderados pelo republicano Edward Markey, passaram no gabinete da ministra Marina Silva e do diretor Florestal, Tasso Azevedo. Na pauta, a oferta de pacote tecnológico para monitorar a Amazônia, com satélite incluso. Markey é chefe da Comissão para a Independência Energética e o Aquecimento Global — criada por Nancy Pelosi. Tem, entre os doadores da última campanha, a polêmica Raytheon (US$ 10 mil). A companhia nos entubou o Sivam depois de uma guerra de bastidores com os franceses, com requintes de espionagem.
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Bolsa Vietnã
O ministro Patrus Ananias está todo prosa. Dia 3, abrirá o Comitê Permanente de Nutrição da ONU, no Vietnã, país que admira desde jovem. “É um povo heróico, que venceu o colonialismo francês e o império norte-americano”, disse à coluna. Lá, vai explicar como o Programa Bolsa Família reduziu a desnutrição infantil em 52%. “Teremos a oportunidade de apresentar dados que comprovam a eficácia do Bolsa Família”. Parece que o programa agrada a ricos e pobres. De EUA a Benin, 18 países já pediram informações. Há acordos assinados com Bolívia, Chile, Equador, Peru, Índia, África do Sul e Panamá.
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Merkel e Lula
Angela Merkel chega a Brasília na noite de 13 de maio. No dia seguinte, discute com Lula parceria em biocombustíveis. A pauta inclui Doha e a estratégia do G-4 para entrar no Conselho de Segurança. A visita de trabalho será a primeira da chefe de governo à América Latina. Dia 16, Lula e Merkel voltam a ser encontrar no Peru, na Cúpula América Latina-UE. A alemã também quer ir a Colômbia e México.
Por Claudio Dantas Sequeira
claudio.dantas@correioweb.com.br
Conexão Diplomática é publicada aos sábados no Correio Braziliense*
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
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