segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A velha diplomacia


A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, foi ao Congresso na quarta-feira passada defender o orçamento da diplomacia para o ano fiscal de 2009. O total é de US$ 11,4 bilhões, valor quase seis vezes maior que os recursos disponíveis ao Itamaraty neste 2008. Em sua mensagem, Rice disse que é preciso "transformar velhas instituições diplomáticas para servir a novas finalidades". Trabalho nada fácil para um país que conserva "a mentalidade de Guerra Fria", como observou o Ministério das Relações Exteriores da China um dia depois de Rice falar aos parlamentares. Esse saudosismo não ataca apenas os EUA, mas é onde ele se apresenta mais latente.

O Departamento de Estado sofre hoje um conflito de idéias que opõe gerações. Boa parte dos diplomatas mais jovens quer outra imagem para o país no mundo; uma postura mais cooperativa e menos hegemônica. Esses funcionários estão conscientes do constrangimento que sofrem no exterior e que se reflete nos números do orçamento. Rice pediu nada menos que US$ 1,16 bilhão só para a proteção de seus subordinados, incluídos aí gastos com pessoal e equipamentos de segurança — serão contratados mais 200 agentes.

US$ 1,79 bilhão serão empregados em obras de segurança em embaixadas e consulados, dos quais US$ 844 milhões na substituição de infra-estrutura diplomática nos postos mais vulneráveis: Santo Domingo (República Dominicana), Dacar (Senegal), Maputo (Moçambique) e Malabo (Guiné Equatorial). O patrimônio dos EUA no exterior é de 15 mil imóveis, num montante avaliado em US$ 14 bilhões. A secretária de Estado prevê ainda US$ 395 milhões em ações de propaganda política, orientando a opinião pública internacional em prol dos interesses americanos.

A estratégia prevê "a marginalização de líderes e organizações extremistas, e prevenção da difusão de mensagens extremistas em populações vulneráveis". Parte desses fundos serão utilizados para treinar diplomatas em línguas consideradas de interesse nacional, como árabe, mandarim, coreano, russo, turco e persa. Reflexos desse desejo por mudança estão em toda parte, inclusive na atual campanha presidencial. A juventude americana vive momento de politização. Por enquanto, prevalecem duas prioridades na diplomacia americana: "Vencer a guerra ao terror e promover a liberdade como alternativa à tirania", nas palavras Rice.


Maquiagem

O Ministério da Agricultura está, de certa forma, aliviado com a imposição do limite de 300 fazendas para exportação de gado. Uma missão da União Européia virá ao Brasil dia 25 vistoriar as propriedades. "Ainda bem que são só 300. Fica mais fácil de prepará-las para a visita. Imagine se tivéssemos que maquiar 1.200 fazendas?!", argumenta um assessor.


Em campanha

Lula aproveitará a visita aos territórios palestinos no final do ano para inaugurar uma série de obras, financiadas com os US$ 10 milhões doados pelo Brasil: um hospital e um centro de saúde equipados; além de duas escolas, sendo uma para meninos e outra para meninas, com laboratórios de informática e cursos de educação técnica. Por fim, o presidente vai inaugurar uma fazenda piloto de criação de peixes e visitará o projeto de recuperação de terras improdutivas. A popularidade de Lula — e de seus candidatos nas eleições municipais — deve aumentar entre os 12 milhões de descendentes sírio-libaneses espalhados pelo país.


Desconfiança

A turnê dos ministros Nelson Jobim e Mangabeira Unger pelos parques militares de França e Rússia tirou o sono do embaixador americano, Clifford Sobel. Após o retorno a Brasília, ele pediu audiência privada com o titular da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. A sós, Sobel questionou Mangabeira sobre "o real motivo" das visitas. Ao que o ministro — enfático que é — se negou a responder, alegando que tais questões "só dizem respeito ao Brasil". Sem sucesso, Sobel foi assuntar com franceses e russos. Antes da viagem, ele convidou Jobim e Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) para uma recepção na embaixada. Entre uísque e canapés, ouviu algumas das idéias fantásticas de nossos representantes.


Explicando a crise boliviana

O vice-presidente da Bolívia, Alvaro García Linera, explicava ao subsecretário de Estado para a América Latina, Thomas Shannon, o conturbado processo político na Bolívia. "Junte a Guerra da Secessão de 1861, o movimento pelo welfare state dos anos 30 e a luta por direitos civis da década 60. Imagine isso tudo ocorrendo ao mesmo tempo!". Ao Correio, Linera admitiu que seu governo errou ao fechar "o canal de diálogo com a oposição", e agora busca distância do governo de Hugo Chávez. "Aqui não é uma mera troca de elites, é uma restruturação profunda."

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Por Claudio Dantas Sequeira
claudio.dantas@correioweb.com.br
Conexão Diplomática é publicada aos sábados no Correio Braziliense*
Foto: Yuri Gripas (Reuters)

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